O ser humano é uma intrincada fusão de partes visíveis e invisíveis. Enquanto nossa dimensão material é facilmente identificável, as partes que nos definem profundamente – a psicologia (pensamentos e sentimentos), a moralidade e a espiritualidade – permanecem intangíveis. Contudo, é inegável que esse mundo invisível não só permeia, mas também molda diretamente nossa realidade visível.
Hermann Hesse, em 1943, nos oferece uma visão notavelmente atualizada sobre as consequências de negligenciarmos essa dimensão interna. Ele destaca como a negligência da disciplina do espírito e da consciência pode corroer a própria vida prática:
"Levaria longe demais descrever de que modo a vida do espírito, após sua purificação, conseguiu impor-se dentro do estado também. Em breve se constatou que haviam bastado algumas gerações em que reinara uma disciplina do espírito frouxa e desprovida de consciência, para trazer sérios danos até mesmo à vida prática, pois a competência e a responsabilidade em todas as profissões elevadas, e mesmo nas profissões técnicas, tornaram-se cada vez mais raras; isso fez com que a cultura do espírito dentro do estado e do povo, e especialmente o ensino em geral, fossem monopolizados cada vez mais pelos intelectuais, e mesmo hoje em dia, em quase todos os países da Europa, o ensino que não permaneceu ao o controle da Igreja Católica Romana, está nas mãos daquela Ordem anônima, que recruta seus membros entre a elite intelectual....De qualquer modo, passou-se muito tempo até que se reconhecesse que a técnica, a indústria, o comércio, etc., também necessitam da base comum de uma moral e honradez espirituais." (Pag. 20)
O Alerta Profético de Hesse para Nossos Dias
Hesse percebeu que a frouxidão espiritual e a falta de consciência em poucas gerações poderiam levar à escassez de competência e responsabilidade, não apenas nas profissões elevadas, mas também nas áreas técnicas. Essa degradação, segundo ele, culminaria na monopolização da cultura do espírito e do ensino por uma elite intelectual, afastando-os de uma base moral e espiritual mais abrangente.
É fascinante como essa observação de 1943 ressoa com nossa busca contemporânea por um retorno ao essencial e o reconhecimento da importância do invisível. Hesse não apenas prevê, mas enfatiza a necessidade de purificação da consciência e como isso afeta diretamente um mundo que, por muito tempo, subestimou a espiritualidade como um pilar fundamental.
A "Aristocracia do Espírito" e a União de Saberes
A grandiosidade de Hesse também se revela em sua "aristocracia do espírito", uma capacidade de integrar a herança cultural da Europa e da Ásia. Essa fusão de conhecimentos, a compreensão de que intelecto e espírito são interdependentes, ecoa com uma profundidade capaz de iluminar o caminho de toda a humanidade.
O texto de Hesse é um convite à reflexão: a prosperidade material e o avanço tecnológico, por mais admiráveis que sejam, não se sustentam sem uma base sólida de moral e honradez espirituais. É um lembrete urgente de que o cultivo do nosso eu interior, da consciência e dos valores intangíveis, não é um luxo, mas uma necessidade vital para a saúde de nossas sociedades e para a plenitude da existência humana. A sabedoria de Hesse nos chama a reconhecer o invisível como a verdadeira fundação sobre a qual o visível prospera.

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